A criptorquidia, popularmente conhecida como testículo não descido, é a anomalia congênita mais comum do aparelho reprodutor masculino. Afeta cerca de 3% dos meninos nascidos a termo e até 30% dos prematuros. Embora possa parecer apenas uma questão estética, a condição traz riscos reais para a fertilidade e aumenta o risco de câncer testicular — por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento na idade certa são fundamentais.
O que é criptorquidia?
Durante o desenvolvimento fetal, os testículos se formam na região abdominal e migram progressivamente para o escroto ao longo da gestação, completando esse trajeto geralmente até o 8º mês de gestação. Na criptorquidia, esse processo de descida não é concluído, e o testículo permanece em algum ponto do trajeto — dentro do abdômen, no canal inguinal ou na entrada do escroto.
Aproximadamente 70 a 80% dos testículos não descidos ao nascimento descem espontaneamente até os 6 meses de vida, especialmente em prematuros. Após esse período, a descida espontânea é muito improvável e a intervenção médica se torna necessária.
Tipos de testículo não descido
- Testículo palpável — pode ser tocado durante o exame físico; geralmente localizado no canal inguinal ou na entrada do escroto. Representa cerca de 80% dos casos
- Testículo impalpável — não é localizado ao exame; pode estar no abdômen (intra-abdominal), atrófico no canal inguinal ou até ausente (anorquia) — em torno de 20% dos casos
- Unilateral — apenas um testículo não desceu (mais comum, acometendo principalmente o lado direito)
- Bilateral — ambos os testículos estão fora do escroto; exige investigação hormonal para descartar distúrbios do desenvolvimento sexual
- Testículo ectópico — completou a descida pelo canal inguinal, mas ficou desviado para uma posição anômala (perineal, femoral ou pubiana)
Criptorquidia ou testículo retrátil?
É fundamental diferenciar a criptorquidia verdadeira do testículo retrátil, pois a conduta é completamente diferente:
- Testículo retrátil — o testículo desceu normalmente para o escroto, mas sobe temporariamente por ação do músculo cremáster, que é muito ativo em crianças. O testículo pode ser manipulado até o escroto durante o exame físico e permanece lá sem tensão. Geralmente não necessita de cirurgia e resolve espontaneamente na puberdade
- Criptorquidia verdadeira — o testículo nunca esteve no escroto, não pode ser trazido até o escroto sem tensão ao exame ou retorna imediatamente após a soltura. Requer tratamento cirúrgico
Essa distinção exige exame físico cuidadoso por profissional experiente, preferencialmente em ambiente aquecido e com a criança relaxada.
Quais são as causas da criptorquidia?
A maioria dos casos é de origem multifatorial, envolvendo:
- Fatores hormonais — deficiência de gonadotrofinas (LH, FSH) ou de testosterona fetal; deficiência de INSL3 (peptídeo ligado ao relaxamento do gubernáculo testicular)
- Fatores mecânicos — gubernáculo curto, abertura inguinal estreita, processo vaginal obliterado
- Prematuridade — a descida testicular não foi completada antes do nascimento prematuro
- Exposição a disruptores endócrinos — pesticidas e substâncias químicas com ação estrogênica durante a gestação
- Fatores genéticos — associação com síndromes como Klinefelter, Prader-Willi e outras
- Baixo peso ao nascer — há correlação entre restrição de crescimento intrauterino e criptorquidia
A cirurgia para correção da criptorquidia (orquidopexia) deve ser realizada entre os 6 e 18 meses de vida. Quanto mais cedo realizada dentro dessa janela, maiores as chances de preservar a função testicular e a fertilidade futura.
Quais são os riscos da criptorquidia não tratada?
O testículo fora do escroto é submetido a uma temperatura 2 a 4°C acima da temperatura escrotal ideal, o que causa dano progressivo às células germinativas responsáveis pela produção de espermatozoides. Os principais riscos são:
Infertilidade
Homens com criptorquidia bilateral não tratada têm comprometimento significativo da fertilidade. Mesmo na criptorquidia unilateral, estudos mostram redução na contagem de espermatozoides em comparação à população geral. A orquidopexia precoce (antes dos 2 anos) melhora substancialmente as perspectivas de fertilidade.
Maior risco de câncer testicular
Homens com histórico de criptorquidia têm risco 3 a 5 vezes maior de desenvolver câncer de testículo. O risco é maior para testículos intra-abdominais e persiste mesmo após a orquidopexia, embora a cirurgia facilite o autoexame e a vigilância. Por isso, homens com histórico de criptorquidia devem aprender o autoexame testicular e realizar acompanhamento regular com urologista.
Torção testicular
O testículo não descido tem maior risco de torção (giro em torno do pedículo vascular), o que é uma emergência urológica que pode levar à perda do testículo.
Hérnia inguinal
A maioria das criptorquidias está associada a processo vaginal patente (canal peritônio-escrotal aberto), que se manifesta como hérnia inguinal indireta, geralmente corrigida no mesmo ato cirúrgico.
Impacto psicológico
A ausência de testículo visível no escroto pode causar ansiedade e impacto na autoestima durante a infância e adolescência.
A cirurgia: orquidopexia
A orquidopexia é o procedimento cirúrgico que traz o testículo para sua posição normal no escroto e o fixa nessa posição. É indicada para todos os casos de criptorquidia verdadeira que não resolveram espontaneamente até os 6 meses de vida.
Idade ideal para a cirurgia
As diretrizes atuais das principais sociedades urológicas recomendam a orquidopexia entre 6 e 18 meses de vida. Estudos histológicos demonstram que alterações na maturação das células germinativas se tornam progressivamente mais severas a partir do primeiro ano de vida. Operar nessa janela traz os melhores resultados para a preservação da fertilidade.
Como é realizada a orquidopexia?
Para testículos palpáveis (canal inguinal ou escroto alto), a cirurgia é realizada por via inguinal: uma pequena incisão na virilha libera o cordão espermático e o testículo, que é então posicionado no escroto e fixado sem tensão. Para testículos impalpáveis, realiza-se inicialmente uma laparoscopia diagnóstica para localizar o testículo. Dependendo da localização, pode ser necessária uma orquidopexia em dois tempos (técnica de Fowler-Stephens).
E nos casos diagnosticados após a infância?
Adolescentes e adultos com criptorquidia não tratada também devem ser submetidos à orquidopexia, pois a cirurgia facilita o autoexame e a detecção precoce de neoplasias. Contudo, os benefícios sobre a fertilidade são significativamente menores que quando realizada na infância.
Acompanhamento após a cirurgia
Após a orquidopexia, o seguimento inclui:
- Avaliação do tamanho e posição testicular nas consultas de rotina pediátrica
- Orientação sobre autoexame testicular a partir da puberdade
- Avaliação do espermograma na vida adulta, especialmente em casos bilaterais
- Vigilância para câncer testicular com ultrassonografia em casos de risco elevado
Testículo não descido em seu filho? Dúvidas sobre criptorquidia?
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